
Fonte: Boletim Informativo SPA Sociedade Paraibana de Arqueologia
Por: Pedro Nunes Filho
Por: Pedro Nunes Filho
Domingos Jorge Velho Morreu na Paraíba
Calixto do Pé-da-Serra era pai do negro Félix da Demarcação, um dos vaqueiros mais espertos que as terras do Piancó já viram nascer. Tinham parentes na região dos Cariris Velhos, e, vez por outra, apareciam por lá. Eram uns negros de origem moçambicana, altos, magros, afilados, contadores de histórias e histórias que pareciam não ter mais fim, tanta era a riqueza de detalhes fornecidos.
Diziam eles que o trisavô tinha morado e lutado nos Palmares, de onde, só por milagre escapara com vida. Desde o tempo do negro-velho, que se finou passando dos cem, esse relato vem sendo contado pelos descendentes.
Quando me sentei diante dele para escutar suas histórias, o preto começou dizendo: – Escute, pois, seu moço este acontecido que de fato sucedeu: Um dia apareceu, vindo parece que lá das bandas de São Paulo, um sujeito que gostava muito de judiar com as criaturas de Jesus. Era alto, nem branco, nem pardo, barbas longas, chapéu de abas grandes, uma delas quebrada de um lado só, roupas recobertas com uma sobrecapa marrom, espada na cintura, cartucheiras cruzando-lhe o peito, trabuco na mão direita e chicote preso aos apetrechos da montaria. Andava cercado de índios aliciados para os serviços de guerra que contratava com autoridades e com Francisco Garcia D´Ávila, dono da Casa da Torre, na Bahia, de quem o cujo indivíduo era rendeiro e, a mando dele e mediante paga, fazia as vezes de matador de bugres.
Devagarzinho, veio vindo das terras paulistas, passou uns tempos na Bahia, ajudou a desbravar os esquisitos sertões do Piauí, depois achegou-se mais um pouco, montando fazenda de gado no São Francisco, em terras arrendadas dos mesmos Garcia d´Ávila. Quando pensa que não, lá está ele pisando os nossos paraibanos sertões de Piranhas a Piancó, espalhando perversidade.
Ah, sujeito perverso dos seiscentos diabos aquele! Dizem que quando precisava parlamentar com alguém importante carecia de um intérprete a tiracolo, pois, apesar de ter nascido nesse mesmo Brasil, mal falava a língua dos brancos que ainda hoje se fala.
Como naquela época os índios tinham entrado em guerra com os fazendeiros que estavam cuidando de tomar suas terras, o dito sujeito foi logo contratado a peso de ouro para espantar a indiada. Andou andando muito pelos altos sertões da Paraíba.
As matanças dele, digo, do bandeirante, caíram mesmo foi em riba dos janduís, povo danado de feroz que morava lá para as bandas das terras potiguaras.
Um dia, o desgraçado, protegido por um terço de soldados que o governador-geral pôs à sua disposição, tomou de assalto uma aldeia potiguara e matou todos os índios degolados. Dizem que eles pegavam os bruguelinhos bem novinhos, jogavam para os ares e aparavam com a ponta das espadas, só pro mode sentir o prazer de ouvir
o choro dos bichinhos inocentes. Só nesse dia, mataram pra mais de cem. Inda saíram foi satisfeitos como se tivessem dado fim a um magote de bicho-bruto do mato, sem nenhuma prestança para viver. Esse monstro passou cerca de vinte e cinco anos embrenhado pelos sertões nordestinos.
Sua perversidade e matança agradaram tanto aos homens que viviam de riba que mandaram logo chamá-lo para bulir com os desgraçados dos negros escravos fugitivos dos engenhos-de-açúcar que, os flamengos, tinham durante a guerra contra se aquilombado nos Palmares, num lugar chamado Serra da Barriga.
Dizem que lá nos Palmares tudo era beleza! Ninguém lá não passava fome, não, nem vivia debaixo do chicote, nem era ferrado na taba-do-queixo feito bicho de quatro patas. Terra abençoada de homens pretos com liberdade de branco que eles mesmos conquistaram, derramando sangue!
As coisas andavam bem direitinhas, tudo de acordo com a vontade de Deus Nosso Senhor, até que um dia – isso sucedeu em 1695 – mandaram o tal indivíduo, chamado, com licença da má palavra, Domingos Jorge Velho, atacar e, dessa vez, aniquilar mesmo o quilombo dos coitados dos negros fujões.
O certo é que, em pouco tempo, ele e outros mais, deram fim a todos os que moravam lá, salvo os que, para não morrer, tiveram a dita de fugir, como o negro-velho que gerou nosso tataravô e deu descendência a nós.
Mas como Deus é justo, houve por bem mandar um castigo vindo dos céus feito um raio em riba da cabeça do maldito exterminador de gente humana. Logo que ele acabou de acabar com o quilombo, matando todos os pretos que nele viviam, os antigos fazendeiros começaram a chegar às suas terras para retomá-las, cada um trazendo um taco de papel com letras e carimbação de Cartório na mão, provando serem os legítimos donos de todo aquele mundão de terras bem cultivadas. Aí o desgraçado do bandeirante paulista ficou foi sem nada, com uma mão na frente e outra trás, como se diz, pois tinha realizado completa gastação de toda a sua fortuna naquela maldita empreitada. Não demorou muito, os homens do poder começarem a virar as costas para ele que tinha tido a desdita de perder todos os possuídos que possuía.
O certo é que o dito cujo, arruinado e também amolecido pela idade, veio esconder-se nas terras do Piancó, na Paraíba do Norte. Lá, sozinho e abandonado, passando dos 90, morreu de desgosto, se a memória não me falha, em 1705, já que não conseguia sequer ter remorso e, na sua soberba, não se curvava para pedir perdão aos céus pelos pecados de matança de tanta gente humana que andou matando.
Se alguém ergueu tumba para ele, não sei, não. Mas se lhe fizeram alguma lápide, com certeza, resta abandonada na entrada de alguma caverna escura, rodeada de urtigas e alastrados, coberta de caranguejeiras peçonhentas, lacraus-rabo-de-tesoura e morcegos e ainda o dito lugar deve viver tocaiado por serpentes escamosas com chocalho na ponta do rabo, só esperando algum arqueólogo sem juízo ter o desplante de sair à procura dos restos mortais de uma criatura tão infame pelos crimes que cometeu.
Diziam eles que o trisavô tinha morado e lutado nos Palmares, de onde, só por milagre escapara com vida. Desde o tempo do negro-velho, que se finou passando dos cem, esse relato vem sendo contado pelos descendentes.
Quando me sentei diante dele para escutar suas histórias, o preto começou dizendo: – Escute, pois, seu moço este acontecido que de fato sucedeu: Um dia apareceu, vindo parece que lá das bandas de São Paulo, um sujeito que gostava muito de judiar com as criaturas de Jesus. Era alto, nem branco, nem pardo, barbas longas, chapéu de abas grandes, uma delas quebrada de um lado só, roupas recobertas com uma sobrecapa marrom, espada na cintura, cartucheiras cruzando-lhe o peito, trabuco na mão direita e chicote preso aos apetrechos da montaria. Andava cercado de índios aliciados para os serviços de guerra que contratava com autoridades e com Francisco Garcia D´Ávila, dono da Casa da Torre, na Bahia, de quem o cujo indivíduo era rendeiro e, a mando dele e mediante paga, fazia as vezes de matador de bugres.
Devagarzinho, veio vindo das terras paulistas, passou uns tempos na Bahia, ajudou a desbravar os esquisitos sertões do Piauí, depois achegou-se mais um pouco, montando fazenda de gado no São Francisco, em terras arrendadas dos mesmos Garcia d´Ávila. Quando pensa que não, lá está ele pisando os nossos paraibanos sertões de Piranhas a Piancó, espalhando perversidade.
Ah, sujeito perverso dos seiscentos diabos aquele! Dizem que quando precisava parlamentar com alguém importante carecia de um intérprete a tiracolo, pois, apesar de ter nascido nesse mesmo Brasil, mal falava a língua dos brancos que ainda hoje se fala.
Como naquela época os índios tinham entrado em guerra com os fazendeiros que estavam cuidando de tomar suas terras, o dito sujeito foi logo contratado a peso de ouro para espantar a indiada. Andou andando muito pelos altos sertões da Paraíba.
As matanças dele, digo, do bandeirante, caíram mesmo foi em riba dos janduís, povo danado de feroz que morava lá para as bandas das terras potiguaras.
Um dia, o desgraçado, protegido por um terço de soldados que o governador-geral pôs à sua disposição, tomou de assalto uma aldeia potiguara e matou todos os índios degolados. Dizem que eles pegavam os bruguelinhos bem novinhos, jogavam para os ares e aparavam com a ponta das espadas, só pro mode sentir o prazer de ouvir
o choro dos bichinhos inocentes. Só nesse dia, mataram pra mais de cem. Inda saíram foi satisfeitos como se tivessem dado fim a um magote de bicho-bruto do mato, sem nenhuma prestança para viver. Esse monstro passou cerca de vinte e cinco anos embrenhado pelos sertões nordestinos.
Sua perversidade e matança agradaram tanto aos homens que viviam de riba que mandaram logo chamá-lo para bulir com os desgraçados dos negros escravos fugitivos dos engenhos-de-açúcar que, os flamengos, tinham durante a guerra contra se aquilombado nos Palmares, num lugar chamado Serra da Barriga.
Dizem que lá nos Palmares tudo era beleza! Ninguém lá não passava fome, não, nem vivia debaixo do chicote, nem era ferrado na taba-do-queixo feito bicho de quatro patas. Terra abençoada de homens pretos com liberdade de branco que eles mesmos conquistaram, derramando sangue!
As coisas andavam bem direitinhas, tudo de acordo com a vontade de Deus Nosso Senhor, até que um dia – isso sucedeu em 1695 – mandaram o tal indivíduo, chamado, com licença da má palavra, Domingos Jorge Velho, atacar e, dessa vez, aniquilar mesmo o quilombo dos coitados dos negros fujões.
O certo é que, em pouco tempo, ele e outros mais, deram fim a todos os que moravam lá, salvo os que, para não morrer, tiveram a dita de fugir, como o negro-velho que gerou nosso tataravô e deu descendência a nós.
Mas como Deus é justo, houve por bem mandar um castigo vindo dos céus feito um raio em riba da cabeça do maldito exterminador de gente humana. Logo que ele acabou de acabar com o quilombo, matando todos os pretos que nele viviam, os antigos fazendeiros começaram a chegar às suas terras para retomá-las, cada um trazendo um taco de papel com letras e carimbação de Cartório na mão, provando serem os legítimos donos de todo aquele mundão de terras bem cultivadas. Aí o desgraçado do bandeirante paulista ficou foi sem nada, com uma mão na frente e outra trás, como se diz, pois tinha realizado completa gastação de toda a sua fortuna naquela maldita empreitada. Não demorou muito, os homens do poder começarem a virar as costas para ele que tinha tido a desdita de perder todos os possuídos que possuía.
O certo é que o dito cujo, arruinado e também amolecido pela idade, veio esconder-se nas terras do Piancó, na Paraíba do Norte. Lá, sozinho e abandonado, passando dos 90, morreu de desgosto, se a memória não me falha, em 1705, já que não conseguia sequer ter remorso e, na sua soberba, não se curvava para pedir perdão aos céus pelos pecados de matança de tanta gente humana que andou matando.
Se alguém ergueu tumba para ele, não sei, não. Mas se lhe fizeram alguma lápide, com certeza, resta abandonada na entrada de alguma caverna escura, rodeada de urtigas e alastrados, coberta de caranguejeiras peçonhentas, lacraus-rabo-de-tesoura e morcegos e ainda o dito lugar deve viver tocaiado por serpentes escamosas com chocalho na ponta do rabo, só esperando algum arqueólogo sem juízo ter o desplante de sair à procura dos restos mortais de uma criatura tão infame pelos crimes que cometeu.